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Silverlight is for porn

by Ricardo Bánffy last modified Apr 02, 2009 05:18 PM

O arquivo da Playboy

Semana passada eu recebi uma notícia interessante. A Playboy teria liberado seu arquivo - todos os números - para a web. O site, http://playboy.covertocover.com/ é bem feito. Revistas na web são um problema de usabilidade, mas esta aqui resolve tudo muito bem.

Mas não é sobre a usabilidade que eu queria falar.

Uma outra história

Alguns anos atrás, um amigo meu contou sobre uma pequena odisséia em que ele se envolveu. O projeto consistia em ler e recuperar os back-ups do código-fonte de um programa que ele escreveu uns 10 anos antes. Para isso, ele instalou um drive de disquetes de 5.25" (um formato de disquete muito popular nos anos 80) em seu PC e tentou ler os discos em que o programa havia sido guardado. Os discos eram legíveis e os arquivos que estavam lá puderam ser copiados sem problemas.

Ainda assim, não deu certo.

Não deu porque o meu amigo não se lembra do programa de back-up que usou. Os arquivos, de sufixo .dat, se não me falha a memória, não pareciam estar em nenhum formato identificável. Mesmo que ele soubesse o nome do programa que foi usado, não é certo que ele rodaria em um computador moderno. Ele provavelmente não rodaria em um OS recente. Ninguém mais sabe nada sobre o formato em que os arquivos foram guardados.

Não há meio prático recuperar esses dados.

Se, em vez de um programa de computador, fosse a cura para uma pandemia, estaríamos todos mortos.

Cauda longa ou empurrão para o Silverlight

Mas, voltando à nossa história principal: a empresa dona do domínio "covertocover.com" é uma tal de Bondi Digital. Parece que não é o primeiro trabalho deles com Silverlight - eles já fizeram o arquivo da Roling Stone, só que em DVD e pago. No caso da Playboy, o que me chamou atenção não foi a gratuidade: foi a ausência de publicidade. Isso é relevante. Alguém poderia argumentar que trata-se de uma iniciativa de branding, mas será que a marca Playboy precisa de um reforço?

Eu acho que não e eu posso explicar.

Você promove uma marca quando você tem alguma coisa que ainda valha a pena vender. O tipo de pornografia pudica que a Playboy tem produzido desde que foi criada tem apelo limitado hoje. Vivemos em uma era em que pornografia de todos os tipos, legal e ilegal, está a não menos de um clique e, na pior das hipóteses, um cartão de crédito de distância e coisas como Tube8 e YouPorn estão mudando o funcionamento do mercado de empresas antes extremamente lucrativas como a Vivid, fazendo-as caminharem rapidamente para uma extinção em massa. Para eles, isso é o fim da linha. Para a Playboy impressa, o fim da linha chegou com a web, embora alguns poderiam dizer até que ele chegou com o Betamax. O interesse na revista Playboy e nas suas reportagens é, na maior parte das vezes, apenas arqueológico.

Não que não seja um interesse válido. Eu me interesso muito pela evolução (no sentido de mudança) de sociedades e a Playboy é um corte interessantíssimo na massa de dados que existe sobre a nossa. Com ela você pode acompanhar tanto a evolução da pornografia como da publicidade e, até mesmo, do jornalismo que normalmente servia de desculpa para alguém comprar a Playboy.

Mas isso não muda o fato de que a Playboy está morta. Só não foi enterrada ainda.

Mas... Por que?

Já que podemos excluir a publicação do arquivo como suporte para a geração de receita com publicidade (não tem banners) e descartamos o negócio da Playboy como um modelo moribundo, precisamos nos perguntar de onde vem o dinheiro. Produzir e hospedar esse material deve custar muito caro.

E é aí que, por assim dizer, as necessidades de suas empresas coincidiram.

Silverlight, por si só, é um relativo fracasso amparado por um problema de ovo-e-galinha. Quase ninguém produz nada porque quase ninguém tem o plug-in instalado. Ao mesmo tempo MS morre de medo de receber outra porrada da União Européia caso inclua o Silverlight num próximo Windows Update.

A única forma que eles têm de aumentar a adoção (e, havendo abundância de conteúdo, justificar a inclusão no Windows Update) é bancar a produção de material.

E deve ter sido isso que aconteceu. A Microsoft deve ter pago - e vai continuar pagando - a conta.

E é por isso que o site funciona com Silverlight e não funciona com Flash.

Arqueologia Windows-only

Silverlight funciona bem no Windows e cumpre, mais ou menos, as mesmas funções que o Flash sempre cumpriu (nem sempre muito bem) em quase todas as plataformas. Alguns programadores aplaudem a flexibilidade do modelo de desenvolvimento. A Microsoft sempre fez boas ferramentas para o programador e o Silverlight não é exceção. Do lado do usuário, algumas pessoas dizem ter conseguido ver o site usando MacOS, outras reclamam bastante de problemas e já desistiram. Eu não consigo ver o site no meu Linux. Tentei sem perder muito tempo.

Pode ser que, em algum momento futuro, backups desse site sejam a única forma restante de visualizar o arquivo da revista e de dar uma olhada em um mercado editorial que já foi importante. Todas essas informações podem acabar perdidas pela ausência de máquinas e programas capazes de lê-las. Windows e x86 não vão durar para sempre, assim como Silverlight.

A sobrevivência da nossa espécie dificilmente dependerá dessa revista ou de seus arquivos e não há nada lá que precise ser preservado a qualquer custo. Ela não é tão importante. Ainda assim, será uma pena se nossos descendentes e sucessores perderem essa janela para o nosso passado.

História importa.