Personal tools
You are here: Home Artigos FISL 7.0



 

FISL 7.0

by Ricardo Bánffy last modified Nov 19, 2008 08:30 PM

Impressões sobre a migração anual dos entusiastas de software livre

Semana passada, a maior parte dela, ao menos, eu participei do FISL 7.0 (a sétima edição do Fórum Internacional de Software Livre).

Para quem está chegando tarde a esta discussão, software livre é um fenômeno social e econômico tanto quanto é um artefato tecnológico. Ele tem permeado mais ou menos todos os campos da atividade humana que empregam, de alguma forma, computadores. Isso se reflete tanto no número de palestras quanto com a sua variedade. Aqui há assuntos para todos os gostos e atividades. Desde micropalestras sobre TurboGears (um framework para desenvolvimento rápido de aplicações web) e do acompanhamento de vários projetos governamentais (em termos de escala, governos fazem grandes empresas multinacionais parecerem uma pequena mercearia de bairro), passando por TV digital e HDTV e pelo uso de Linux em computadores embarcados (nunca deixa de me impressionar o fato de que o mesmo sistema que roda na maioria dos 10 maiores supercomputadores do mundo também consiga operar um computador que cabe em uma caixa de fósforos e que funcione com duas pilhas palito), por brinquedos com microcontroladores e luzes e pelo envolvimento de empresas como Sun e Google.

Fenômeno Econômico

Uma das formas de se descrever os efeitos do software livre é que ele está comoditizando segmentos inteiros do mercado de software, forçando-os a igualar suas características. Já não faz mais tanta diferença que programa específico você roda, ele, provavelmente, consegue funcionar junto com os outros. Muitos deles são livres e podem ser estudados, modificados e redistribuídos.

Mais do que isso - várias empresas estão liberando seus programas antes proprietários. A Sun, com o OpenSolaris é um exemplo que me vem à cabeça (você pode baixá-lo daqui). Não confunda isso com generosidade. Trata-se de uma luta para permanecer relevante. Servidores RISC rodando Unix já foram, a seu tempo, parte obrigatória de qualquer data-center. Se você quisesse que seu software fosse usado, ele precisava rodar em Solaris, HP-UX, IRIX e em AIX. Isso significava compilá-lo com compiladores e bibliotecas diferentes e testá-lo em várias plataformas. Se o Linux é o inimigo número 1 do Windows, ele é muito mais ameaçador para os vários Unixes proprietários. O mercado de servidores RISC de pequeno porte parece ter desaparecido, substituído por máquinas x86 rodando Linux. Acho que ninguém mais faz workstations com processadores RISC. Ao menos não esperando vendê-las. É por isso que a Sun teve que abrir o código do Solaris. Não bastou nem mesmo ser grátis - ele é grátis desde, acho, 2000. Ser livre é pré-requisito para se beneficiar de esforços colaborativos - se ninguém rodar Solaris em seus computadores, vai ser a Sun que vai ter que gastar dinheiro garantindo que os programas rodem bem nele, em vez dos produtores de software. Se o software não rodar mais no Solaris, é o Solaris que fica irrelevante, não o contrário.

Fenômeno Social

Aliás, "produtores de software" é muito anos 90... Hoje somos todos co-produtores e consumidores de software. Mesmo que você não escreva uma linha de código, o simples ato de rodar o programa em seu computador e enviar um bug-report (ou um crash-report), mesmo automático, faz parte do processo de desenvolvimento. Meu notebook era mal-suportado pelo Ubuntu 5.04. Na instalação, ele me pediu para mandar um relatório (que ele mesmo monta) da configuração de hardware dele. O resultado disso é que a versão 5.10 suporta ele muito bem e o beta da 6.06 suporta os recursos dele melhor do que o Windows XP (que já não está instalado há vários meses - afinal, eu não preciso de Windows nele). O grau de automação dessas ferramentas assusta. É um grau de sofisticação que eu sou capaz de apostar que nenhuma empresa de software proprietário emprega.

O progresso técnico também tem simplificado a colaboração. Ferramentas melhores tornam simples coisas que antes seriam impossíveis. Eu vi uma rápida demonstração de um plug-in para o Nautilus (para as infelizes criaturas ainda presas ao Windows, Nautilus está para o Gnome como o Windows Explorer está para o Windows) escrito em Python (minha linguagem "do coração") que permite ao usuário manipular coisas em um servidor Plone (meu gerenciador de conteúdo "do coração") como se fossem gravados no disco local. E não estou falando de copiar coisas de e para ele (isso o Nautilus faz, sem ajuda) - estou falando em manipular atributos dos objetos armazenados no servidor. Eu não vi o código, mas eu tenho certeza de que é simples e elegante e que o Sidnei (o autor) não perdeu muitas noites de sono no processo. A Enfold, onde o Sidnei trabalha, tem um similar para Windows, que deve ter sido escrito em C++ (e C++ para Windows parece tudo, menos C++), empacotado em uma DLL e que deve ter consumido umas dez vezes mais tempo e recursos para fazer.

A distinção cada vez mais inexistente entre criadores e consumidores cria um círculo virtuoso em que o consumidor de um produto é o produtor do próximo e em que a variedade e qualidade da oferta aumenta à medida em que cresce o compartilhamento. Não valem as regras da economia da escassez - software não é laranja - se você dá um programa, você não perde o seu (você pode ter perdido a oportunidade de vendê-lo - que é perfeitamente lícito de se fazer com software livre desde que se respeite a licença - mas isso é outra história) e você ainda ganha uma comunidade que compartilha soluções para problemas que você pode ter. Se você der sua licença de Windows para um amigo seu, acontecem duas coisas, talvez três - primeiro, você pode ser processado por violação de contrato porque sua licença não permitia que você a desse para alguém (as OEM não premitem), segundo, você deixa de ter o direito a rodar seu Windows (o que, fundamentalmente, é algo bom) e terceiro, você pode perder o amigo (o que, fundamentalmente, você fez por merecer).

Artefato Tecnológico

Software livre não está limitado a sistemas operacionais e browsers (que são dois dos exemplos mais conhecidos - Linux e Firefox), mas de várias outras categorias de produto. Estamos falando de bancos de dados relacionais seríssimos com performance similar a seus colegas proprietários, de programas de gerenciamento de projetos a CRM. Estamos falando, mais ou menos, de tudo.

Ainda existem algumas justificativas para se usar um software proprietário no seu desktop, mas são poucas. A única coisa que meu notebook (100% software livre) não faz que meu PC de mesa faz é jogar jogos para Windows (que eu não jogo), tocar vídeos Windows Media 10 e acessar o Unibanco Empresas (uma salva de vaias pro Unibanco). Tirando isso (alguns vídeos, jogos e webmasters preguiçosos), não consigo pensar em mais nada.

Mesmo esses, um bom DVD e um bom videogame resolvem.

Nos servidores, a maior barreira é o suporte e as garantias. Se você ler direito seus contratos de licença, vai ver que não é um problema tão sério - ou, ao menos, não limitado ao software-livre: naquele papel com o qual você (e, por consequência, o CEO da sua empresa) concorda ao instalar o Windows, a Microsoft diz que não se responsabiliza se o sistema deles não funcionar ou não servir para aquilo para o que você o comprou e que, no máximo, devolve o quanto você pagou. Suporte e garantias custam caro, mas podem ser comprados. Procure o pessoal da Red Hat, da Novell ou da Canonical.

Garantias, ou falta delas, são especialmente importantes se as suas leis de proteção ao consumidor obrigarem você a dar garantias sobre a segurança e confidencialidade dos dados particulares guardados em seus servidores.

A Aventura

Mas, de todas as coisas que eu vejo nesses encontros, o que mais me entusiasma é a sensação de aventura e descoberta. Lá, são todos aventureiros que exploram terras estranhas, percorrem caminhos que nunca foram percorridos, que fazem coisas que nunca foram tentadas e que se encontram, para partilhar suas experiências e ajudar a planejar novas expedições. Não dá pra saber de que pessoa sentada no chão com o notebook aberto vai sair a próxima grande idéia. Não dá pra saber se é da cabeça da pessoa que está na minha frente ou daquela que está em conversando com ela de seu apartamento em Estocolmo, Sidney ou Istambul.

É como se, 100.000 anos atrás, pessoas vindas de longe se reunísem para trocar experiências sobre como se faz e para que se usa o fogo.

É assim. É importante. É historicamente significativo. Não sei para onde esse barco vai. Mas estou feliz de estar nele.

Adendos:

Se você quiser experimentar o OpenSolaris mas quiser algo mais próximo de um Linux civilizado (existem os que não o são), pode experimentar o Nexenta OS. Ele é mais ou menos um Ubuntu (até as cores são meio iguais) com um kernel OpenSolaris no lugar do kernel Linux. Eu nunca usei, portanto, se você não gostar, ou ele comer sua lição de casa, não adianta falar comigo (não que adiante se você também usar Ubuntu). Eu não saberei o que fazer para salvar seu dia.

Tem uma coisa que todo pai devia saber sobre as vantagens de se ter um computador sem Windows em casa - A oferta de jogos que rodam em Linux é muito mais limitada do que a oferta de jogos que rodam em Windows. Um efeito colateral disso é que os mais jovens que eu pude ver parecem perder menos tempo jogando do que seus colegas expostos ao Windows. Salta aos olhos que eles aproveitaram suas horas livres em buscas muito mais edificantes.

© Ricardo Bánffy

Este artigo também está disponível aqui.