Personal tools
You are here: Home Artigos Headhunters do Mal

Headhunters do Mal

by Ricardo Bánffy last modified Feb 12, 2011 01:21 PM
— filed under: , , , ,

Segunda à noite, estava eu no supermercado quando me liga um rapaz, Leonardo, de uma empresa de RH de Santo André, falando sobre uma vaga de Gerente de TI numa indústria da região, que tinha recebido uma indicação minha e que queria me conhecer. Ele faz algumas perguntas sobre o que eu faço da vida, sobre o que eu quero com minha carreira. Explico que sou consultor autônomo, que faço projetos, oriento equipes, faço chover, desarmo bombas, carrego pianos e apago incêndios. Me pergunta se eu gostaria de um vínculo CLT e eu explico que com um vínculo de longo prazo é possível um trabalho melhor de construção de uma equipe, que é algo que eu quero fazer há tempos. Marca uma hora com Carolina, às 10:00 do dia seguinte e fica de me mandar um e-mail com o endereço para onde eu devo ir.

Manhã de terça e nada do e-mail. Ligo no número que apareceu no identificador de chamadas (abençoada tecnologia). Tinha um nome pomposo, anglo-saxão (o tal de Leonardo tinha dito, mas eu não entendi e não quis perguntar - não faria a menor diferença). Explico o problema, peço o endereço e me certifico de que sei como chegar (em todas as vezes em que me perdi dentro de Santo André, só consegui descobrir onde estava quando já estava no meio de São Caetano)

Cheguei lá, escritório bonito, móveis modernos, de boa estirpe, tampos de mesa de vidro de uns 18 milímetros (caros), painel iluminado com logo da empresa, telefonia digital Ericsson, computadores Compaq. Digo que tinha hora com Carolina. Recepcionista faz cara de "ai que bom" me dá uma ficha para preencher e pede que eu aguarde.

Péssimo sinal # 1: na ficha havia perguntas como "Indique suas prioridades de carreira" com itens como "viagens ao exterior", "cursos", "projeção profissional". Se viagens ao exterior fossem minha prioridade seria comissário de bordo, não engenheiro.

Péssimo sinal # 2: ainda na ficha, uma pergunta dizendo o que eu gostaria de fazer, orientação psicológica, análise de currículo, entrevista em inglês e espanhol...

Corajosamente enfrento pergunta cretina após pergunta cretina. Terminado esse suplício, entrego a ficha e começa o estágio 2, de espera. A recepção está lotada com as 4 pessoas que aguardam. Pessoas passam de um lado a outro tendo que se desviar de mim - minhas pernas são compridas e eu estava num local de passagem. A recepcionista me oferece um café, eu aceito. Ela me traz um café numa xícara do tamanho de um dedal. Menos mal, café me ataca o estômago. Noto que há janelas abertas. O ar-condicionado pode estar desligado, quebrado ou simplesmente não aguenta tanta gente assim.

Mais ou menos uns 5 minutos depois, sou atendido pelo tal Leonardo (apesar da hora marcada com a outra pessoa), que me leva a outra sala, com várias baias abertas para um espaço central.

Mesa maior, tampo jateado com o logo da empresa. Sento-me e descubro que a cadeira está em seu ajuste mais baixo e que isso me obriga a olhar para cima para conversar com o tal Leonardo, que deve ser uns 10 cm mais baixo do que eu. Procuro a alavanca e subo. Pronto, agora o tal Leonardo me olha de baixo para cima. Prefiro assim. Me recosto para não dar a impressão de que eu ansioso para ouvir o que ele diz. Ele fala da vaga sem maiores detalhes e que há outras vagas que poderiam me interessar blá blá blá (discurso de vendedor) que eles têm 180 clientes e que já colocaram 80 deles em empresas da região. Me pergunta se eu acho que 50% é um bom índice, concordo. Leonardo então explica ainda que eles são uma empresa com outros escritórios em várias cidades, que saíram em uma matéria na Você S/A e que prestam serviços de recolocação, orientação psicológica, avaliação e re-estruturação de currículo. Ele ainda chama o meu currículo de "bem montadinho", mas explica que sempre me fazem perguntas que não estão no meu currículo e que ele poderia ser melhor estruturado.

E que para ter todos esses serviços mais a inclusão do meu currículo na base de dados deles por um ano, eu pagaria apenas (!) 4 parcelas iguais de R$ 450.

Decido que, uma vez perdida a manhã, ao menos vou torná-la divertida.

Ele me pede meu CPF e meu RG para começar o cadastramento. Sem questionar, eu entrego.

Explico então que eu já contratei empresas de placement antes (mentira) e que estava familiarizado com o processo, mas que queria analisar o contrato de prestação de serviço deles antes, se ele poderia me dar o modelo. Aí ele saiu do script e fez cara de pânico. Estava escrito na cara dele algo como "Ué... Não era essa a próxima pergunta dele"

Ele sai e, uns 5 minutos depois volta com um modelo de contrato (que tinha o nome de um pobre-coitado vítima deles, um português que mora em Osasco). Eu leio atentamente o contrato. Promete coisas como "Elaboração de uma Estrutura Curricular Completa Impresso a Laser em papel" e "Um ano de Cadastro Computadorizado de Profissionais" da empresa. Vejo que há duas cláusulas com termos conflitantes. Disparo um torpedo e pergunto se eles fariam um aditamento ao contrato com uma clarificação dos termos, para "evitar dores de cabeça depois".

Ele faz cara de desespero. O contrato ainda faz menção a uma tabela de valores dos serviços prestados, que é um anexo do contrato. Eu peço para ver esse anexo.

Nesse meio tempo, ele pede que eu comece o processo, fazendo uma "redação" sobre minha carreira e minhas expectativas. Eu pego o papel e pergunto em qual número da Você S/A (detesto a revista e aquela linha editorial "sucesso-profissional-custe-o-que-custar") ele tinha dito mesmo que tinha sido publicada uma matéria sobre a empresa. Anoto apenas aquilo no papel e devolvo a caneta. Minutos depois chega a tal Carolina, explicando que não haveria problema com o aditamento, que a rescisão do contrato teria uma multa de 10% sobre os serviços prestados até então, conforme a cláusula 5.2. Peço então os valores dos serviços, ela se senta à mesa e começa a rabiscar os valores (sempre números quebrados) explicando a orientação psicológica que eu iria fazer logo depois de sair dali. Ouço o blá blá enquanto faço contas de cabeça. Desde pequeno sou muito bom nisso, mas o tom insistente do discurso me desconcentra.

De acordo com os números, se eu tivesse meu currículo cadastrado e se eu fizesse a tal entrevista de orientação psicológica, eu estaria devendo uns R$ 600. Eu pergunto como ela definiria o cadastramento do currículo, que custa R$ 283 de acordo com seus rabiscos. Ela me explica que o "especialista" (devia estar falando do Leonardo) lê o currículo e preenche os campos de um banco de dados deles. Olho para a tela do micro e vejo algo colorido, cheio de degradés de mau-gosto e check boxes com fotos ao lado. Penso que alguns clientes devem achar aquilo moderníssimo.

Explico que eu gostaria de analisar o contrato e a proposta comercial deles. Carolina parece chocada com minha indecisão. Ela me avisa que eu não poderia levar o contrato. Modulo minha agressividade, apenas o bastante para fazê-la se desapegar dele. Pergunto, simulando espanto, "Mas o contrato não é público?". Visivelmente contrariada, ela pega o "modelo" de contrato e oblitera o nome da vítima com uma esferográfica antes de me entregá-lo. Não há qualquer traço da existência de uma tabela de preços impressa.

Cansado da brincadeira, minto que tinha uma reunião (tinha na verdade marcado um almoço com minha mãe, num restaurante perto da agência de viagens dela) e que teria no máximo meia-hora para a tal entrevista, que seria melhor dar uma resposta no dia seguinte. Levanto-me e aperto a mão da Carolina. Ela mente que foi um prazer conversar comigo. Eu respondo que foi interessante conversar com eles.

Passando pela recepcionista não fico surpreso ao descobrir que eles não têm convênio com o estacionamento do prédio. Não estou acostumado a descasos assim. Para fora da porta, com uma cópia do contrato em mãos e uma noção da tabela de preços dos serviços deles, ainda tenho um momento de depressão ao encontrar uma vítima deles, um rapaz um pouco mais velho do que eu, cara de Clippeiro ou Coboleiro, ainda desempregadao após uns 6 meses de contrato. Parece desanimado, batido até. Me arrependo de não estar com cartões de visita na hora - poderia ter trocado cartões. Me perguntou se era minha primeira conversa. Disse que sim. Não quis opinar sinceramente - parecia desnecessariamente cruel.

Adendos

Pouco antes da quase publicação de uma matéria sobre recolocação profissional na Você S/A, um advogado da Dow Right (uma empresa de recolocação) me procurou, me acusando de estar espalhando e-mails caluniosos - alguém copiou meu artigo e tomou a liberdade de anexar uma lista de empresas que incluia a Dow Right - e me ameaçando de cabível processo. Eu expliquei que nunca mandei qualquer e-mail, mostrei a ele o link original para a matéria e mostrei também que o nome dos empregadores dele não estava mencionado uma única vez (como o leitor pode verificar com seus próprios olhos e o search do browser) no texto acima.

Este texto foi publicado originalmente (e sem qualquer menção à reputada empresa) aqui (e isso já faz um tempão - foi em Junho de 2002).

© Ricardo Bánffy