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Quem Tem Medo do Steve Mau - Parte 1

by Ricardo Bánffy last modified Nov 19, 2008 08:29 PM
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Há muita gente se perguntando se a Apple vai mesmo fazer o MacOS X rodar em qualquer PC.

Eu acho que não vai. Mas eu vou arriscar algumas previsões.

Hardware e Software

Eu acho que a Apple vai continuar fazendo computadores pessoais profundamente diferentes dos PCs comuns que você encontra por aí.

"Bobagem", você pode pensar. "A Apple vai usar o mesmo chip que todo mundo usa, logo, eles serão apenas PCs bonitos".

Errado.

O problema é que todo mundo usa Pentiums para fazer PCs e PCs são muita coisa além do processador. Um PC é um computador que tem uma série de características específicas que permitem que ele seja compatível com os programas que rodavam no IBM PC em 1981. Um PC, mesmo com oito Opterons dual-core, provavelmente acorda pensando que está em 1/1/1980, uma quinta-feira, e que tem apenas um único processador 8088 dentro dele. Ele roda as inicializações exatamente (quase) como fazia em 1981: procura pelos disquetes, pelo bus ISA (que nem deve estar lá) e tenta inicializar as outras coisas que estão dentro dele. Além das características que fazem com que ele pense ser um 8088, ele tem algumas outras que fazem com que ele seja compatível com um PC/AT, que tinha um processador 286 e que também tinha suas próprias esquisitices projetadas para emular aquele PC de 81 enquanto ele fingia que não tinha um processador bem melhor. O mais veloz dos Pentiums 4, para fazer um reset, ainda precisa discutir esse assunto com o controlador do teclado.

Mesmo em um servidor que não tem um teclado.

Um PC, em suma, é um computador que usa um processador razoavelmente rápido (ninguém no mundo vai me fazer chamá-lo de moderno, nem a Apple) atrelado a uma longa série de remendos e soluções nem um pouco elegantes que fazem ele parecer um micro de 1981 dentro de um de 1984.

E o IBM PC não era elegante nem em 1981.

Para ser brutalmente sincero, o projeto dele era motivo de piada entre os engenheiros da época.

A Apple não precisa fazer isso. Ela pode fazer um computador moderno (assim... como um Macintosh) usando um processador Pentium 4 que acorda sabendo que é um Pentium 4 (e não pensando que está em um horrível pesadelo - a imagem de Ronald Reagan perguntando "Where's the rest of me?" me vem à cabeça), em que computador ele está rodando e o que tem que fazer para carregar o sistema operacional certo.

Afinal, um Mac não precisa mesmo rodar os programas de um PC de 1981, precisa?

Além disso, a Apple sempre fez computadores mais bonitos do que qualquer fabricante de PCs jamais conseguiu.

Ainda assim

Ainda assim, eu imagino que a Apple não vá tomar medidas heróicas para impedir o MacOS de rodar em PCs comuns. Eu dou uma semana depois do lançamento oficial para que alguém tenha um MacOS X rodando em um PC onde antes se usava Windows (ou Linux, provavelmente - é esse pessoal que inventa coisas, não os usuários de Windows).

Evitar ativamente que o MacOS X rode em PCs comuns custa caro e representa um esforço extra que não deve ser recompensado. Pode deixar o MacOS mais lento também, o que é, definitivamente, um motivo para engavetar de vez a idéia.

Um Mac x86 deve bootar de um jeito diferente a ponto de prevenir que você boote um PC "genérico" do mesmo jeito. A Apple não precisa fazer nada contra PCs genéricos - basta não fazer nada a favor deles.

Os únicos usuários de PC que serão capazes de rodar o OSX serão os curiosos (que já rodam OSX com o PearPC muito bem) e os que usam hoje coisas como o XPostFacto (que permite que você rode OSX em Macs não suportados pelo OSX) e que escolham fazer o mesmo em um PC. O processo de bootar um 10.4 ou 10.5 para x86 em um PC genérico deve ser muito parecido, aliás, com o que o XPostFacto faz com um Mac bege: colocar drivers extras e mudar coisas na configuração do instalador. Serão, na melhor das hipóteses, um grupo pequeno. Serão também piratas - a licença do MacOS proíbe ele de ser rodado em um computador não-Apple.

Quem quiser usar MacOS e ter direito a suporte, atualizações e tudo o mais (ou apenas ter um computador que não seja revoltantemente feio), vai querer comprar um Mac.

O que nos leva a concluir que quem devia se preocupar com isso é Steve Ballmer.

"Mas os piratas são maus, né tio?"

Há anos a Microsoft usa a pirataria como forma de divulgação. Pirataria e repressão são cuidadosamente equilibradas para maximizar o faturamento e manutenção do market-share a partir da dominância entre usuários domésticos. Se não houvesse pirataria de Windows, todos os novos usuários do Windows teriam sido convencidos a usá-lo por meio das campanhas publicitárias ou pela recomendação de amigos (embora eu não chamaria de amigo alguém que recomenda o Windows). Sem a pirataria, a Microsoft ia ter muito mais trabalho (e gastar muito mais dinheiro) para manter fiéis seus usuários.

Sendo possível (embora errado) rodar o MacOS em PCs comuns, torna-se possível experimentá-lo e, eventualmente, adotá-lo em versão pirata até poder comprar um Macintosh de verdade.

Isso privaria a Microsoft de uma valiosa fonte de usuários e poderia impactar a continuidade da fatia dela no mercado a médio prazo.

E nem estamos considerando a possibilidade de Steve Jobs re-editar o mercado de compatíveis com Macintosh que ele prontamente extinguiu quando voltou para a Apple. Ainda que Michael Dell tenha feito uma declaração de amor (o título da matéria é ótimo), eu não acredito nisso.

E as Previsões?

A Microsoft pode neutralizar essa ameaça de várias formas (e que, a meu ver, serão combinadas):

  • Eliminar todo o suporte a Macintoshes em sua linha de produtos. Adeus VirtualPC (não que ele continue muito necessário depois da migração para x86), Office e MSN Messenger para Macintosh.
  • Garantir que o Windows rode em hardware Apple. É mais ou menos como permitir que se coloque um logo Volkswagen em um Porsche. Não sei quem faria isso em sã consciência.
  • Relaxamento da repressão à pirataria "doméstica", mesmo com produtos high-end (adeus ativação, inclusive em servidores), e "organizada" (menos camelôs sendo presos por vender Windows), compensada com intensificação da repressão contra a pirataria corporativa - se a Microsoft acha que você pode comprar Windows, é melhor comprar mesmo.
  • Vincular ainda mais o desenvolvimento fácil de aplicações corporativas a clientes Windows. Desenvolvedores .Net que quiserem suportar clientes de outras plataformas com as mesmas funcionalidades dos clientes Microsoft devem esperar ter muito mais trabalho.
  • Lançar logo o Longhorn para que a imprensa especializada tenha algo de bom para falar.

Eu detesto prever o fim da Microsoft. Pessoas demais fazem isso desde o início dos tempos e nenhuma delas acertou. Não acho que eu seja tão esperto assim.

Mas eu posso dizer que Macs baratos, MacOS rodando em PCs e Michael Dell falando de amor e maçãs são sinais do final dos tempos.

Ao menos para alguns.

© Ricardo Bánffy

Nota: Este artigo também está disponível em http://webinsider.uol.com.br/vernoticia.php/id/2480.